Três pinturas, três infraestruturas: notas de uma viagem à Suécia

Três pinturas me chamaram atenção dentre as várias que vi em exposições que visitei durante o mês que fiquei como pesquisador visitante na Suécia. Produzidas entre o final dos anos 1960 e a década de 1970, as obras de Sten Eklund, Anna Sjödahl e Atti Johansson de algum modo lidam com o infraestrutural.

Sten Eklund, Reningsverk (1969). Norrköpings Konstmuseum
A pintura de uma estação de tratamento de águas residuais me chamou atenção pela maneira como transforma uma infraestrutura funcional em uma composição arquitetônica quase abstrata. Tubulações, compartimentos e estruturas industriais em perspectiva. Pesquisando um pouco mais sobre o artista, me chamou atenção o projeto Kullahusets hemlighet (1972), uma narrativa ficcional construída a partir de um personagem fictício, o botânico J. M. G. Paléen, que em 1849 encontra uma comunidade aparentemente abandonada, mas repleta de construções tecnológicas, instalações de mineração, cultivo e comunicação. A obra se desdobra em gravuras, mapas, anotações, modelos e outros documentos que simulam o arquivo de uma investigação científica. Essa aproximação entre ficção, arqueologia, cartografia e infraestrutura me parece particularmente instigante.

Anna Sjödahl — Centraldatorn i Sundsvall (1978). Moderna Museet
A imagem de um conjunto de computadores de grande porte, instalados em uma sala quase desprovida de presença humana, me fez pensar em uma espécie de arqueologia imagética dos data centers. Hoje estamos acostumados a associar a computação a interfaces digitais, nuvens e dispositivos cada vez menores, mas a pintura nos devolve à materialidade monumental das primeiras infraestruturas de processamento de dados. A história da obra também é interessante: em 1977, o instituto sueco Arbetslivscentrum iniciou um projeto de pesquisa sobre os efeitos da crescente presença dos computadores e da automação nos ambientes de trabalho e convidou Sjödahl a produzir desenhos e pinturas em locais onde essas transformações estavam acontecendo. Os equipamentos representados eram computadores Honeywell Bull 6000, utilizados pela agência sueca de previdência social para armazenar informações confidenciais dos cidadãos.

Atti Johansson — Så länge skogen finns... (1974).
Esta me cativou inicialmente por ser composta por duas telas e gosto da experimentação com a multiplicidade de telas. Na parte superior, uma instalação industrial atravessada por tubulações e equipamentos; na inferior, uma massa densa de vegetação. A obra integra uma investigação mais ampla de Johansson sobre tecnologia e destruição ambiental feita ao longo das décadas de 1960 e 1970, a artista desenvolveu trabalhos sobre a expansão da computação, a relação entre sistemas artificiais e organismos vivos e os impactos da exploração florestal. Fui pesquisar outras pinturas e várias fazem referências a tubos, dutos, canos.


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