O volume 43 da Revista Galáxia (PUC-SP) conta com uma contribuição minha, o artigo "Affordances geofísicas das mídias: arte e tempo profundo". No artigo, discuto como a crise ecológica planetária e suas causas antropogênicas têm feito a geologia emergir em distintos campos do conhecimento a partir do reconhecimento da época geológica Antropoceno. No campo dos estudos de mídia e comunicação, essa emergência se deu a partir de teóricos relacionados à arqueologia e ecologia das mídias como Siegfried Zielinski, Matthew Fuller e Jussi Parikka. O artigo toca nesse contexto de referências e temas apontando como a arte é reconhecida como pilar, por suas potencialidades epistemológicas, para lidar conceitualmente com as affordances das mídias nas suas relações de ecologia.


Para acessar a revista: http://revistas.pucsp.br/galaxia

Obra de Katie Peterson, The Sound Of.

Ruy Cézar Campos

As infraestruturas críticas para o funcionamento da Internet costumam ficar fora do campo de atenção dos seus usuários e mesmo dos teóricos e profissionais da comunicação. Falhas infraestruturais na rede global, todavia, representam um risco dorsal na reconfiguração dos modos de vida diante da imposição do confinamento para mitigar o contágio viral.


Mais do que isso, os desafios operacionais devem ser considerados, especialmente pensando como falhas infraestruturais de telecomunicação podem comprometer as estratégias de resiliência diante do cenário atual causado pelo COVID-19, ao mesmo tempo em que se promove um cenário de teste para o setor nesse século em que as mudanças climáticas possivelmente trarão outras situações desastrosas como desafio. Ainda que repleta de informação falsa e riscos de cibersegurança multiplicados pela situação de confusão, a Internet ainda é uma ferramenta e um meio essencial para se seguir vivendo, movendo a economia, educando e se distraindo e divertindo em meio a atual turbulência biológica enfrentada pela humanidade.


Desde o início da pandemia, o segundo maior ponto de troca do mundo em termos de tráfego de dados digitais, o DE-CIX em Frankfurt, bateu recordes de pico em série: 8.3 tbps em 11 de fevereiro[1]e 9.1 tbps em 16 de março[2].


Esses picos são sintomas de uma série de eventos previstos (como o lançamento do novo Call of Duty e eventos esportivos recentes), mas também e especialmente de um esforço de reconfiguração social cujos efeitos são imprevisíveis para as instituições e os cidadãos nas suas relações com a Internet: empresas migram para o home office, o Netflix lança um aplicativo para os usuários assistirem remotamente juntos ao seu catálogo, museus abrem exposições virtuais, congressos passam a ser repensados para o ambiente virtual e as universidades expandem temporariamente o uso de suas plataformas EAD. Esses são apenas alguns dos efeitos imediatos que vão se colocando e que apontam que vivemos também um momento de catalização de transformações nas interações digitais.


Toda essa expansão tem um impacto material na ecologia da rede e sua infraestrutura. Os setores de data centers e cabos submarinos estão em alerta para os desdobramentos e soluções resilientes diante desse evento global. A ANATEL, no Brasil, já solicitou às operadoras de telecomunicação que aumentem a banda larga durante a pandemia, tendo a Oi e a Claro já divulgado que seguiram a solicitação. De qualquer forma, muitas redes privadas ou VPN não possuem estrutura para receber centenas de usuários simultaneamente e a própria operacionalidade de agentes infraestruturais menos visibilizados, como empresas de data centers e cabos submarinos, encontra-se desafiada.


Tais setores ativam seus protocolos de pandemia, tendo de lidar com as restrições às viagens de negócios, ao cancelamento de eventos, a restrição ao acesso de pessoas nas instalações infraestruturais, o monitoramento dos trabalhadores e os efeitos da crise em seus corpos, o enfraquecimento das cadeias de fornecimento e uma ampliação das atividades remotas. Essas medidas, dentre outras, podem ser conferidas publicamente no relatório sobre os riscos e resiliências da atual crise publicado pelo Uptime Institute: COVID-19 Minimizing Critical Facility Risk, disponível online.


Em entrevista para o portal Data Center Dynamics, a gerente de comunicação da SuperNAP Itália, Alison Gutman, compartilha um pouco como têm sido a experiência de gestão de um data center de 42.000 metros quadrados e 40MW de energia disponível, instalado justamente na região do Norte da Itália, profundamente afetada pelo COVID-19.


"Os data centers ainda precisarão operar durante a crise, fornecendo continuidade aos negócios e mantendo as cidades online, à medida que a cada dia temos mais pessoas mudando para o teletrabalho", conta ela, acrescentando que a SuperNAP Italia adotou o trabalho remoto desde o final de fevereiro. "Todos os que não precisam estar no data center trabalham de casa. Permanece presencialmente somente uma pequena equipe local para garantir a continuidade dos serviços do data center. Os funcionários mantêm uma distância segura um do outro enquanto trabalham e quando não estão no trabalho, precisam respeitar as mesmas leis que todo mundo respeita, que é ficar em casa", conta.


O quadro de funcionários ainda não foi afetado pelo vírus, mas caso isso ocorra a empresa concede licença médica. O data center não poderá ficar, em nenhuma hipótese, sem uma pessoa presente para o operar. No interior da instalação, estoque de alimentos o suficiente para os funcionários já se encontra armazenado para o caso da equipe ter de permanecer por um longo período de tempo sustentando o tráfego digital na Itália. “Temos tudo pronto. Não acreditamos que isso irá acontecer, mas, se for o caso, já temos tudo pronto para eles em termos de sono, alimentação, higiene. Tudo o que possam precisar."


Quando perguntada pelo Data Center Dynamics se a SuperNAP estava preparada, caso os funcionários tenham que deixar o local, Gutman disse: "nunca houve e nem nunca haverá um momento em que o data center tenha estado totalmente vazio. Nosso data center é tecnicamente capaz de funcionar por conta própria. Mas parte de nossos protocolos é que sempre haja alguém lá.”


Gutman acrescentou que, "no caso de uma perda total de energia, a SuperNAP está equipada com vários geradores de emergência, que podem garantir até 80 horas de operação contínua para toda a instalação (60% da carga considerando 270 l / h de consumo combustível). Além disso, a empresa possui contrato com fornecedores de diesel, que têm como obrigação chegar dentro do limite de seis horas para reabastecer e continuar a fazê-lo pelo tempo que for necessário.”


Para Gutman a mensagem que a Itália transmite ao mundo é que todos estão fazendo o que podem. "O trabalho não parou. Não é um apocalipse. Estamos tendo essa experiência maluca com trabalho em casa e trabalho inteligente, fazendo o máximo possível superar esse momento difícil.”


Referências

https://www.datacenterdynamics.com/en/analysis/italys-coronavirus-lockdown-the-view-from-supernap/

  1. [1]https://www.de-cix.net/en/news-events/news/new-all-time-peak-at-de-cix-frankfurt-8-3-tbps [2] https://www.telecompaper.com/news/de-cix-records-new-peak-of-over-91-tbps-at-its-site-in-frankfurt--1330534